País deve instalar o equivalente a nove usinas nucleares em capacidade solar e eólica neste ano, com destaque para o avanço da geração fotovoltaica
O setor elétrico brasileiro vive um dos seus momentos de maior expansão em energias renováveis. Segundo projeção da Aneel divulgada em janeiro, o país deve instalar 9.142 megawatts de nova capacidade em 2026, um crescimento de 23,4% sobre os 7.403 MW adicionados no ano anteriorIn 2026, Brazil will install the equivalent of 9 Angra III nuclear power plants in electrical generation capacity. There will be 9,142 megawatts (9.1 GW) of new capacity, according to ANEEL’s projection, released on January 13, 2026. A energia solar lidera essa expansão de forma isolada, enquanto a eólica vive uma desaceleração, resultado direto de um problema que preocupa o setor: a falta de estrutura de transmissão para escoar toda a energia limpa que o país já é capaz de gerar. CPG Click Petroleo e Gas
Solar em alta, eólica em desaceleração
Os números do primeiro trimestre de 2026 já confirmam a tendência apontada pela Aneel. Somente em março, foram acrescentados 1.140 MW de nova capacidade, distribuídos em 27 usinas, sendo 25 delas solares, totalizando 1.109 MW apenas nessa fonteIn March alone, there were 1,140 MW distributed across 27 plants. Of these 27, 25 were solar, totaling 1,109 MW. Ceará, Goiás, Bahia e Pernambuco foram os estados que mais receberam novos projetos no período, reforçando o protagonismo do Nordeste e do Centro-Oeste na expansão da energia fotovoltaica no país. Ao todo, a energia solar deve contribuir com 4.560 MW da expansão prevista para o ano, um salto de 61,7% em relação aos 2.815 MW instalados em 2025. CPG Click Petroleo e Gas
O cenário é bem diferente para a energia eólica, que deve adicionar apenas 1.430 MW em 2026, uma queda de 21,3% frente aos 1.825 MW instalados no ano anterior, a menor expansão do setor desde 2019Já a eólica deve viver uma desaceleração do crescimento este ano, com a adição de 1,44 GW, a menor desde 2019. A projeção indica uma desaceleração de 21,3% em relação a 2025. Um dos principais motivos para essa retração é o chamado curtailment, o corte forçado de geração determinado pelo Operador Nacional do Sistema sempre que a rede elétrica não consegue absorver todo o excedente produzido pelos parques eólicos, geralmente por limitações de infraestrutura de transmissão nas regiões onde esses projetos estão concentrados. Eixos
O peso das renováveis na matriz elétrica brasileira
Com toda essa expansão, o Brasil consolidou uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Em janeiro de 2026, a capacidade instalada total do país chegou a 215,9 gigawatts, dos quais 84,63% vêm de fontes renováveis, mais do que o dobro da média global, que gira em torno de 40%As of January 1, 2026, Brazil’s total installed capacity reached 215,936 MW (215.9 GW), according to data from SIGA (ANEEL’s Generation Information System). Of this total, 84.63% comes from renewable sources. Essa proporção elevada ainda reflete, em boa parte, a força das hidrelétricas construídas décadas atrás, mas o crescimento acelerado do solar e da eólica vem reduzindo, ano após ano, a dependência histórica da água dos rios para gerar eletricidade. CPG Click Petroleo e Gas
Segundo o Balanço Energético Nacional de 2025, solar e eólica já representam juntas 23,7% de toda a eletricidade gerada no Brasil, um salto expressivo em relação a poucos anos atrás, quando essa participação ainda era marginalSegundo o Balanço Energético Nacional 2025 (BEN 2025), as fontes solar e eólica já representam juntas 23,7% da geração de eletricidade no Brasil. Além dessas duas fontes, a biomassa também ganhou espaço relevante, respondendo por 40,6% de toda a geração termelétrica do país em 2024, um papel importante porque, diferentemente do sol e do vento, a biomassa consegue gerar energia de forma controlável e previsível, ajudando a equilibrar o sistema em momentos de menor geração solar ou eólica. Echoenergia
O desafio da transmissão e o desperdício de energia limpa
Apesar dos números positivos, o setor elétrico brasileiro enfrenta um problema estrutural que ameaça colocar em risco parte dos ganhos da transição energética: o descompasso entre a velocidade de instalação de novas usinas e a capacidade da rede de transmissão de escoar essa energia. Segundo dados oficiais, apenas em 2024 o Brasil descartou 10% de toda a energia eólica gerada e 17% da energia solar, resultando em perdas estimadas em quase R$ 5 bilhõesapenas em 2024, o Brasil descartou 10% de sua energia eólica e 17% de sua energia solar, resultando em perdas de quase 5 bilhões de reais, ou cerca de US$ 873 milhões. Especialistas do setor apontam que o problema não está na capacidade de gerar energia limpa, e sim na infraestrutura necessária para levar essa energia até quem realmente precisa dela. Bloomberg Línea
Para tentar amenizar esse gargalo, o país já começa a investir em sistemas de armazenamento de energia, com o primeiro leilão de baterias do setor elétrico brasileiro previsto para os próximos meses. A expectativa é que essa tecnologia ajude a reduzir o desperdício, permitindo guardar o excedente gerado nos horários de pico solar e eólico para uso posterior, quando a demanda estiver mais alta ou a geração mais baixa. Enquanto essa infraestrutura não avança na mesma velocidade da geração, o Brasil corre o risco de continuar desperdiçando parte significativa do potencial renovável que já possui, mesmo sendo hoje uma referência mundial em energia limpa.
O Brasil segue em uma trajetória consistente de expansão das energias renováveis, mas o ano de 2026 deixa claro que gerar energia limpa não é mais o principal desafio do setor. O verdadeiro teste, daqui para frente, será conseguir transportar toda essa energia de forma eficiente até os consumidores, evitando o desperdício que já soma bilhões de reais em prejuízo. Enquanto isso não acontece, a diferença entre o potencial instalado e a energia efetivamente aproveitada continuará sendo o ponto mais sensível da transição energética brasileira.
Fontes: Click Petróleo e Gás | eixos | Bloomberg Línea | Echoenergia